Sábado, 3 de Setembro de 2011

السلام عليكم




أنا لا أعرف ما إذا كنت من أي وقت مضى أن تكون قادرة على وصف ما رأيت، لنقول ما شعرت به، لإعادة ما وصلتني.على بعد آلاف الأميال من المنزل في بلد عربي، وتحيط بها الحروب والنزاعات ، في شهر رمضان كاملا.
ليس لدي سوى كلمة واحدة : شكرا.

Domingo, 17 de Julho de 2011

esvaziar-me de ti

Quero esvaziar-me de ti. Que saias em cada suspiro, te evapores em cada lágrima, desapareças em cada grito mudo. Esgotar as palavras sobre ti, cansar o pensamento, acelerar o coração até ao limite. Ficar com milhares de nós na garganta, borboletas no estômago, arrepios na espinha. Arrancar-te da pele, esquecer-te de tanto te lembrar, eliminar-te do disco duro. Não peço mais nada. Quero apenas esvaziar-me de ti.

Quinta-feira, 14 de Julho de 2011

não me tentes


Deixas-te pairar como flocos de neve que se desfazem em água ao tocar o chão, sopras sussurros que se diluem no vento, enrolas-te em ondas que teimam em desmaiar incansavelmente na areia, pintalgas os campos de folhas de Outono, como pistas, como trilhos, que nunca conseguirei seguir porque mudam de lugar à mínima brisa. Não me tentes. Eu sei que me sentes. Ou me mentes.

Sexta-feira, 1 de Julho de 2011

para ti, menina do mar


Há uma menina (por aí) de quem gosto muito. Gostava tanto de lhe fazer um poema ou de lhe dar um pedaço do (seu) mar. Mas que ela percebesse que não cabe num poema ou num postal ilustrado porque é maior do que o mar. Gostava de lhe conseguir dizer o quanto gosto dela, das suas palavras, do seu sentir. De lhe poder dar um abraço apertado porque às vezes as palavras não chegam. Gostava que ela soubesse que isso dos sonhos é mesmo tão importante... De lhe contar que há estrelas e planetas onde tudo é possível e que nunca deixasse de acreditar nisso.
Há uma menina de quem gosto mesmo muito. É uma menina do mar.

Sábado, 25 de Junho de 2011

como é que se esquece alguém que se ama?

Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?
As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguem antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar.
É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução.
Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha.
Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.
O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.

Miguel Esteves Cardoso, in "Último Volume"


[Obrigada, Pedro.]

Quinta-feira, 23 de Junho de 2011

e agora?

E agora? O que faço com este imenso buraco negro que tenho cá dentro? Como vou conseguir esquecer, ultrapassar, passar uma esponja? E agora como vou viver estes dias vazios e estas noites cheias de silêncios tortuosos? O que faço à falta que me fazes, aos beijos que guardo e me queimam a boca, aos abraços que me sufocam e já não cabem em mim? A quem entrego estes sorrisos que só nascem para ti, os arrepios que surgem das tuas mãos e a vontade de andar com os pés no ar? Como faço passar o tempo que teima em ser muito tempo, onde encontro beleza outra vez nas pequenas coisas da vida? Aonde é que vou voltar a gostar de tardes de vento na praia, madrugadas frias e cheias de orvalho, manhãs cinzentas com gritos de gaivotas, janelas que se abrem sobre a cidade antiga? Quando voltarei a derreter-me só com um sorriso, a gostar de andar de mão dada, a rir-me de tudo e de nada, a dançar no meio da rua, a perder-me só de olhar para ti? Em que madrugada voltarei a andar descalça, sentar-me na beira dos passeios, acordar feliz só porque sim? Daqui a quantos séculos vou conseguir viver outra vez? E agora? Diz-me. Diz-me o que faço com este imenso buraco negro que tenho cá dentro.

Quarta-feira, 22 de Junho de 2011

São para ti, os meus beijos. Mesmo os que guardo comigo.

Terça-feira, 21 de Junho de 2011

"Custou-me caro essa tranquilidade:
 a renúncia completa da esperança e a fé que eu tinha na humanidade."

Quarta-feira, 8 de Junho de 2011

as mulheres dão tantas dores de cabeça


[Crónica de Rui Zink, em 08/03/2010, in O Metro]

Terça-feira, 7 de Junho de 2011

Segunda-feira, 6 de Junho de 2011

lição nº 7

"Fala se tens palavras mais fortes do que o silêncio, ou então guarda silêncio."

Eurípedes

Quinta-feira, 2 de Junho de 2011

"Amor e tosse não dá para esconder."

Terça-feira, 31 de Maio de 2011

Segunda-feira, 30 de Maio de 2011

nem sempre o filme tem um final feliz

Tinha tudo para ser uma história especial
Tinha até dois bons atores e o papel principal
Afinal não é bem o que se diz
Nem sempre o filme tem um final feliz
Tinha tudo para ser uma história especial
Mas quem ficou pra ver não gostou do final
Afinal não é bem o que se diz
Nem sempre o filme tem um final feliz

Miguel Gameiro in excerto de Filme

Domingo, 29 de Maio de 2011

o teu sorriso

Lembrava-me do teu sorriso. E das tuas mãos. E da forma como me tratavas, como olhavas para mim, a paixão assolapada que tínhamos um pelo outro. Passaram muitos anos e voltar a ver-te foi surpreendentemente bom. Não sei como conseguimos manter intacta a nossa cumplicidade, a vontade de partilhar tudo, a dificuldade de cada um ir depois à sua vida. Não há amor como o primeiro. E contaste-me das vezes que te lembravas de mim e o efeito que isso teve na tua vida. E eu percebi. Afinal, era o teu sorriso que eu procurava em todos os outros que me foram encantando ao longo da minha vida.

Quinta-feira, 26 de Maio de 2011



Quando vi isto, lembrei-me desta menina e do seu smile, breathe and go slowly
Para ti, C.

Quarta-feira, 25 de Maio de 2011

Some things are true whether you believe in them or not.”

in City of Angels 

Terça-feira, 24 de Maio de 2011

Eu sei que dava um jeitão e que a minha vida seria bem mais fácil, mas não consigo fazer de conta.

Sábado, 21 de Maio de 2011

às vezes pode ser mais do que uma vida

Às vezes encontro-te no meio de um livro, de uma praia parecida com a nossa ou numas cadeiras de lona aquecidas pelo sol. Às vezes apareces-me em lugares improváveis, em sorrisos alheios, em poemas que não me celebram. Descubro-te em memórias que insistem colar-se a mim, surges num aroma que se cruza comigo na rua e que não sigo por pudor. Depois fico na dúvida. Se foi real o que vivemos e sofremos ou se foste uma criação minha, uma paranóia, um sonho. E apareces-me dentro de uma caixa aparentemente esquecida no fundo de uma gaveta, em palavras doces deliciosamente gravadas na tua caligrafia única em manuscritos dobrados e misturados com flores secas e espalmadas, bilhetes de avião, de cinema, de concertos, guardanapos de papel com declarações de amor, post-it amarelos que escondias para me surpreender. Às vezes sinto as tuas mãos, ouço a tua voz, derreto-me com o teu sorriso, estremeço com o teu olhar e volto a sentir-me verdadeiramente em casa dentro dos teus (a)braços. Às vezes mergulho num mar que dói de tão azul e volto a perder-me trezentas e cinquenta e quatro mil vezes como se não houvesse amanhã. À s  v e z e s. Às vezes pode ser mais do que uma vida.

Segunda-feira, 16 de Maio de 2011

lição nº 6

"Se caíres sete vezes, levanta-te oito."

Quarta-feira, 11 de Maio de 2011

lição nº 5




Irra, que nunca mais aprendo!!!
Vou inscrever-me num curso intensivo.

Terça-feira, 10 de Maio de 2011

"Só o que sonhamos é o que verdadeiramente somos,
 porque o mais, por estar realizado, 
pertence ao mundo e a toda a gente."

Bernardo Soares in O Livro do Desassossego


[para  um  menino que mora longe, mas que  vive no meu coração]

Segunda-feira, 9 de Maio de 2011

quem não sabe, inventa


"- Ainda hei-de ir ao Medónalde, mas não é para comer um hambruga, é para comer um gelado. É o Sudei, não é?"

Sexta-feira, 6 de Maio de 2011

"Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. 
O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. 
Faço paisagens com o que sinto."


Bernardo Soares in O Livro do Desassossego

[para o M., amigo presente nas horas tristes. Obrigada.]

Terça-feira, 3 de Maio de 2011

"Oh Deus! (...) salve seu mundo com a minha dor."

Maria Bethânia

Domingo, 1 de Maio de 2011

mãe

Lembro-me de tudo, sabes? Do teu cheiro, da tua pele, dos teus olhos verdes pintalgados de castanho, da tua voz, dos teus conselhos sábios, dos teus cuidados comigo, das nossas gargalhadas cúmplices que ninguém entendia. Às vezes ainda me afundo no teu pescoço e cubro-te de beijos. Depois lembro-me que dizias já chega e eu a achar que eram sempre poucos. Devia ter-te dado mais. Ter-te dito mais vezes o quanto gosto de ti, o quanto te admiro, o quanto te amo. A falta que me fazes. A falta que sinto da tua voz, do teu cheiro, das tuas palavras, de me rir contigo. Não consigo rir-me assim com ninguém. Bastar uma expressão, um canto da boca torcido, um olhar, para desatar a rir sem parar. Lembro-me de tudo, sabes? Muito de mim és tu.

Sexta-feira, 29 de Abril de 2011

que queres que te diga?

Fiquei sem pio, de boca aberta, sem chão, sem norte, colada ao chão. Quem não se sente não é filho de boa gente e eu, que sou de gancho, nunca gostei de fazer figura de urso. Não adianta pôr água na fervura, tentar acalmar os ânimos, porque já nem com mel caças moscas. E tu pintaste a manta, fizeste-me de fel e vinagre, andaste a encher pneus, entraste mudo e saíste calado e agora nem que te agarres com unhas e dentes levas a água ao teu moinho. Quem te avisa teu amigo é e eu disse-te que não gosto de falar para o boneco e que só me come a cabeça quem eu deixo. Andaste na lua, a fazer que fazes, armado em paz d’alma como se a culpa morresse sozinha. Meteste a pata na poça, não deste o braço a torcer e agora nem que a vaca tussa e ao mesmo tempo chovam picaretas, eu volto a trocar repetidos. 
Que queres que te diga? Já dei para esse peditório, estou pelos cabelos, apeteceu-me mandar-te abaixo de braga e agora só quero que me tirem deste filme.

Quinta-feira, 28 de Abril de 2011

Não te apoquentes, eu aguento. Mais abaixo é impossível. Bater no fundo também serve para ganhar lanço e vir à tona. Respirar.

Quarta-feira, 27 de Abril de 2011

"De vez em quando os homens tropeçam na verdade,
mas a maioria deles levanta-se rapidamente
e continua o seu caminho
como se nada tivesse acontecido."

Winston Churchill

Quinta-feira, 21 de Abril de 2011

quimioterapia

Temos a mesma profissão, a mesma paixão, a mesma ética e o mesmo mau feitio. Mas acho que foi o mesmo carácter que nos aproximou e o mesmo sentido de humor que nos manteve cúmplices ao longo dos anos. Hoje dei-te a mão e fiz-te rir enquanto os químicos entravam no cateter para matar o que voltou a aparecer. Não me morras, não? Vê se te aguentas. Eu sei que já estás farta e que muitas vezes é isso que te passa pela cabeça. E que depois do que já passaste, era para já tudo ter acabado. Mas vê se te aguentas. Já te cortaram, já fizeste quimio, radio, já te disseram que estavas curada. Depois o Manuel. No pulmão. E mais quimio. E tu sempre com ele. Cheia de força. E agora isto. Mais um TAC e metástases sei lá por onde.
Não me morras, não? Vê se te aguentas. Eu vou contigo. Seguro-te a mão e faço-te rir.

Segunda-feira, 11 de Abril de 2011

tenho saudades de me rir contigo

Ninguém devia ter que passar por isso. Perder a autonomia, deixar de andar, de se poder vestir, lavar, comer, passear, ir ao café, virar-se na cama, apanhar um lenço que caiu, fechar uma porta, cortar um bife, escrever um bilhete. E continuar lúcida, inteligente, perpicaz, consciente de tudo o que se passa à sua volta. Que vida é esta? Porque ficamos assim? Porque vivemos assim? Encharcados de químicos para as dores e para prolongar uma vida sem qualidade. Por favor, não me dês os remédios, eu não quero viver mais assim. E eu a não querer que vivesses mais assim, a morrer por te ver viver assim, e a dar-tos. Tem paciência, vais melhorar. Não digas asneiras. E a saber que não eram asneiras, que tinhas carradas de razão. E continuava a dar-te a sopa e a fruta passada em colherinhas de café, para não te engasgares e evitar a maldita seringa que odiavas e com a qual te enfiavam tudo pela boca abaixo, quando eu não estava. Vai-te embora, olha as horas, tu tens a tua vida. Qual vida? Eu dava a minha vida em troca da tua. Para não teres que passar por isso. Não teres que depender de ninguém. Não mandarem em ti. Não decidirem quando é que te deitas ou levantas. Não teres que esperar que eu chegue para mudares de posição, ou para ires à casa de banho. Tu não podes comigo, olha as tuas costas. Os outros, sempre os outros. E a esqueceres-te de ti. E eu a fazer das tripas coração para te fazer rir, desdramatizar, desviar a conversa. E a lembrar-te as histórias da tua infância que me contavas a mim e que eu sei de cor como se as tivesse vivido. Perdíamo-nos de riso. Esta rapariga é tola, ri-se por tudo e por nada. Tenho saudades de me rir contigo.

Domingo, 20 de Março de 2011

dor

Tinhas-me pedido, mas nem precisavas. Fiquei contigo até ao fim. Dei-te a mão, cobri-te de beijos, enchi-te de palavras doces, prometi-te que tomo conta de tudo. Acabou a tua dor. A minha continua. Imensurável. Indescritível. Com o tempo, talvez vá ficando mais pequena mas sei que a vou levar comigo. Agora estás em paz e eu também. A dor de te ver sofrer foi ainda maior do que a de te ver partir. Estás comigo como eu sei que estarei sempre contigo.

Sábado, 26 de Fevereiro de 2011

Nem sempre é a melhor opção.

Sexta-feira, 25 de Fevereiro de 2011

para ti, querido afilhado



no primeiro dia do resto da tua vida, que vai ser feliz, tenho a certeza.

Quinta-feira, 24 de Fevereiro de 2011


Olham-nos de lado. Acham-nos exagerados. Desdenham da veracidade do que sentimos, de como nos sentimos. Fazem-nos perguntas. Duvidam de nós. Olham-nos incrédulos quando nos olhamos, alheios ao mundo que fervilha à nossa volta. Isso é dos livros e dos filmes. Seja. Nós somos um livro e um filme. Somos tão perfeitos juntos como imperfeitos sozinhos. Os mesmos princípios, os mesmos sonhos, a mesma cabeça. A mesma paixão, o mesmo amor. E os contrastes, os opostos que se atraem, que se complementam. O deserto que acalma o vulcão.

Domingo, 30 de Janeiro de 2011

se tu soubesses


Se tu soubesses as vezes que te calo na minha boca e te guardo dentro de mim. Se tu soubesses quantas e quantas vezes me empanturro de ti para suportar melhor a falta que sei que vou sentir. Se tu soubesses o quanto te respiro, te inspiro e transpiro lentamente, com medo que me saias pelos poros. Se tu soubesses o quanto te sinto, te suspiro, te toco, te agarro e te desfaço. Se tu soubesses o quanto te cheiro, te saboreio, te conheço de cor e me surpreendo como se fosse sempre a primeira vez. Se tu soubesses o que eu sinto, o que eu penso, o que eu sonho e o que faço contigo. Se tu soubesses o quanto me arrepias, me deleitas, me fazes perder. Se tu soubesses o amor que me tens, que me dás e o que tens para me dar. Se tu soubesses os mil e cinquenta sorrisos que fazes nascer em mim. Se tu soubesses. Se tu soubesses. Se tu soubesses o quanto me fazes feliz, tinhas chegado mais cedo à minha vida.

Sexta-feira, 28 de Janeiro de 2011

Quarta-feira, 12 de Janeiro de 2011



"Em cada um de nós há um segredo,
uma paisagem interior, com planícies invioláveis,
vales de silêncio e paraísos secretos."


Antoine de Saint-Exupéry

Segunda-feira, 13 de Dezembro de 2010

amor incondicional


Uma das melhores coisas que nos pode acontecer é sermos amados exactamente pelo que somos e não pelo que gostariam que fôssemos. Ama-nos verdadeiramente quem gosta de nós por inteiro, com qualidades e defeitos. Sendo muito raro acontecer, há quem nunca o tenha vivido e até duvide que isso exista.


[Ser (tão) amada assim é um privilégio.]

Sábado, 11 de Dezembro de 2010

as tuas mãos


Não sei se algum dia vais (vou) perceber porque gosto tanto das tuas mãos. A primeira vez que as vi, seguravam-te a cara, levemente iluminada pelo sol vermelho que se deitava no mar. Achei-as lindas, perfeitas, desenhadas, mãos de homem. Eu adoro as tuas mãos. Não sei se é da cor, da forma, do toque, da pele, ou do amor com que me fazem perder. Não sei explicar-te para onde me levam, como me fazem sentir, por onde me perco. Sei que são feitas de ternura e carinho e vontade e desejo e delicadeza e mil cuidados e atenções. São feitas de mimo e arrepios e química e atracção e viagens à lua. São feitas de amor. Não sei se algum dia vais (vou) perceber porque gosto tanto das tuas mãos. Mas sei que me perco e me encontro dentro delas.

Sexta-feira, 10 de Dezembro de 2010

do meu amor pelo deserto

Quiseste saber do meu amor pelo deserto. Eu falei-te da cor da areia (que é a minha preferida), do quente, da imensidão, da simplicidade, do horizonte a perder de vista. Falei-te do silêncio, da calma, do aparentemente imutável e que é sempre diferente. Falei-te da cor da pele dos homens do deserto, da sua fisionomia e do quanto isso me atrai. Falei-te do imprevisível, do vento que o enche de ondas, da ausência de pontos de referência, da sensação de infindável, de introspecção, de viagem à alma. Contei-te que é no silêncio que me ouço, que gosto e preciso de estar sozinha e que nunca tive medo da solidão. Que gosto da sensação de pertença, de envolvência, sem me sentir sufocada. Que preciso de partilha e cumplicidade sem me sentir invadida. Que gosto de me sentir presa por vontade sem deixar de ser livre. Que gosto de me perder para me poder encontrar.
Quiseste saber do meu amor pelo deserto. E eu falei-te do meu (imenso) amor por ti.

Quarta-feira, 8 de Dezembro de 2010

a outra metade

Não te procurei nem esperava que viesses. Não sabia onde estavas, por onde andavas, de que eram feitos os teus dias, se sonhavas comigo ou se me procuravas. Mas já gostava dos teus abraços, dos teus beijos, das tuas mãos (como eu gosto das tuas mãos!), da tua forma de me olhar e de me sentir. Já gostava da tua voz, da tua calma no meio do caos, da forma sábia com que encontras soluções, da sensibilidade que te torna único, do teu lado racional que me apazigua com a vida. Não sabia quando mas tinha a certeza que virias. Que me querias tua e ser meu e partilhar tudo o que a vida nos guardou. E chamar-me tonta e minha querida e meu amor e encher-me de felicidade. E amar-me perdidamente e deixar-te amar por mim. E sermos felizes juntos como nenhum dos dois foi antes.
Não te procurei nem esperava que viesses mas sabia que quando chegasses, ambos iriamos encontrar a metade que nos faltava.






"I want you. I want all of you, forever, everyday. You and me... everyday."


in The Notebook

o teu nome, meu amor


Só para afastar esta tristeza
para iluminar meu coração
falta-me bem mais tenho a certeza,
do que este piano e uma canção.

Falta-me soltar na noite acesa
o nome que no peito me sufoca,
e queima a minha dor.

Falta-me soltá-lo aos quatro ventos
para depois segui-lo por onde for,
ou então dizê-lo assim baixinho
embalando com carinho,
o teu nome, meu amor.

Porque todo ele é poesia,
corre pelo peito como um rio
devolve aos meus olhos a alegria
deixa no meu corpo um arrepio,
porque todo ele é melodia
porque todo ele é perfeição.
É na luz que vem.

Falta-me dizê-lo lentamente
falta soletrá-lo devagar,
ou então bebê-lo como um vinho,
que dá força pró caminho
quando a força faltar.

Falta-me soltá-lo aos quatro ventos
para depois segui-lo por onde for,
ou então dizê-lo assim baixinho
embalando com carinho,
o teu nome, meu amor.

Porque todo ele é melodia
e porque todo ele é perfeição.
É na luz que vem.

Falta-me soltá-lo aos quatro ventos
para depois segui-lo por onde for,
ou então dizê-lo assim baixinho
embalando com carinho,
o teu nome, meu amor.

Sexta-feira, 5 de Novembro de 2010

Quarta-feira, 27 de Outubro de 2010

António Lobo Antunes

"Se eu tirasse as máscaras, começavam a aparecer estas histórias"


Entrevista de Ana Soromenho e José Mário Silva (www.expresso.pt)
10:09 Sexta feira, 22 de Outubro de 2010

António Lobo Antunes recebe-nos em casa: estantes cheias até ao teto, quadros de Júlio Pomar, fotografias da família e amigos. Foi aqui que escreveu o livro publicado por estes dias ("Sôbolos Rios que Vão", Dom Quixote) e o próximo, já em fase de revisão. É a primeira vez que escreve no lugar onde mora. "Ao contrário das minhas casas anteriores, esta não está sempre a mandar-me embora", explica enquanto nos conduz à sala ampla e luminosa, as árvores a agitarem-se nas janelas. O escritor que afirma ter muita dificuldade em falar da matéria dos livros, porque "está no limite do indizível", não vive sem eles. Junto aos sofás, a estante dos preferidos: Tolstói, Cervantes, Joyce, Shakespeare, Conrad... Uma sala inteira é reservada aos exemplares das muitas traduções dos seus livros feitas pelo mundo fora. Quando conversamos com Lobo Antunes, ficamos sem conseguir perceber se ele sabe onde termina a sua ficção e começa a sua realidade.

Disse-nos que não queria dar esta entrevista... E, para nós, também se torna delicado... Delicado porquê?

Preferimos entrevistar quem tenha prazer na conversa. Tanto no seu caso como no nosso, é trabalho. É o vosso trabalho, não é o meu.

Se não fosse pelo seu trabalho, não estávamos aqui. O meu trabalho é escrever livros, não é falar sobre eles.

Mas fala. Não, não falo.

Acaba sempre por falar. Dá muitas entrevistas. Vamos ver... As entrevistas são terríveis. Trata-se de um exercício de vaidade. Construímos uma pessoa a partir de uma ideia ou construímos a ideia a partir da pessoa? Muitas vezes, já se leva uma ideia da pessoa e queremos, instintivamente, que ela corresponda.

Diz que não gosta nada disto, mas colabora sempre. No fundo, aprecia este jogo. Acho que sou ingénuo. Penso: "Desta vez, vão-me entender." Talvez porque espere um entrevistador ideal. No meu caso, a corrente passa ou não passa. Quando não passa, é impossível. Não quero dar nenhuma ideia ao leitor acerca do livro. Tem de se vender sozinho. Quando o publico, é porque estou contente com ele. O importante é que chegue ao bom leitor.

O que é um bom leitor? É um leitor que fala para o livro.

Esse diálogo é silencioso. Não é silencioso, está cheio de gritos.

Mas são gritos interiores, entre o leitor e o livro. Como é que o escritor recebe esse eco? Há muitos que me escrevem. E não só leitores. O Christian Bourgois editor francês da obra de Lobo Antunes, com quem não falava de livros, escreveu-me uma carta, antes de morrer, em que diz: "Tu és meu irmão e não há escritor no mundo que admire tanto." Nunca me tinha dito isto. Era um homem que parecia seco, mas por baixo dessa frieza aparente havia um calor humano extraordinário. Portou-se com uma grande coragem durante o cancro, sabendo que ia morrer. Eu disse à mulher, a Dominique, que é quem dirige agora a editora: "O teu marido portou-se com imensa coragem." Ela respondeu-me: "Não é coragem, é elegância."

Essa luta coincidiu no tempo com a sua própria luta contra o cancro. Foi um pouco antes. O problema é que ele morreu e eu não. Sabe, quando estava a fazer tratamentos, pensava muito: "Hoje vou viver ou morrer?" As outras pessoas comportavam-se com uma dignidade imensa.

Fala nisso como se houvesse em si uma culpabilidade. E havia. Sentia-me culpado.

Mas porquê? Porque as pessoas eram melhores do que eu. Mais dignas, mais corajosas. A única coisa que eu sentia era um vazio.

Acha que não teve essa coragem? Perguntei aos meus amigos. Dizem que sim.

Numa situação dessas, o que é ter dignidade? Na sala de espera da radioterapia, havia revistas nas mesas que ninguém lia, televisões para as quais ninguém olhava, raparigas de 18 anos com cabeleiras postiças. E eu sentia-me rodeado de príncipes. Eles eram, eu não. Um senhor de idade vinha de uma terra qualquer do Alentejo e a ambulância trazia-o para Santa Maria. Vestia fato completo. Um fato cheio de manchas, com o colarinho abotoado, mas sem gravata. Já tinha a magreza dos estados terminais, uma cor horrível, e, quando o chamavam, avançava como se fosse um rei. Nunca vi uma gravata tão bonita como aquela. Essa majestade, eu não tinha.

De que modo essa proximidade com a morte o transformou? Há uma série de coisas que deixam de ser importantes.

Quais? Olhe, há outras que passam a ser importantes. Estar sol, estar aqui sentado, estar vivo. Agora faço revisões de seis em seis meses e para o ano consideram-me curado.

Entretanto, continua a fumar cigarros... Claro que continuo.

Foi sorte? Não. Foi um cirurgião extraordinário. Antes da cirurgia, explicou-me que a TAC não tinha metástases mas que não sabia o que ia encontrar. Eu estava à espera da anestesia e de repente senti que me estavam a pegar na mão. Era ele. Esteve de mão dada comigo até eu adormecer. É difícil imaginar como isto é importante.

Teve medo? O que vem depois é uma indiferença, um vazio. O pós-operatório foi muito longo. De início, não tinha sequer força para carregar na campainha para chamar a enfermeira. Eu era uma coisa que estava ali.

Como é que se volta à vida normal? Muito devagar. Eu estava a meio de um livro, "O Arquipélago da Insónia". Quis recomeçar, mas escrevia meia hora e ficava exausto.

Consegue-se regressar ao mesmo livro? Estava cheio de medo. Se não escrevo durante quatro ou cinco dias, perco a mão. E ali foram meses. Não sei, um livro é tão independente de nós... Tem uma vida própria.

O livro ajudou-o a sair do vazio? Não. Aí eu já estava mais seguro de que não ia morrer. O cirurgião dizia que tinha de retomar as minhas rotinas, e eu não conseguia. Ficava sentado o dia todo a olhar para a parede.

Assustou-o a possibilidade de não voltar a escrever? Não pensava nisso. Agora, sou outra vez incapaz de imaginar a vida sem escrever. Na altura, era-me indiferente.

O que era voltar às rotinas? Dá a ideia de ser uma pessoa extremamente metódica. Tenho de ser, não é? Este é um ofício de paciência. Começa das dez à uma, continua das duas até às oito, e depois das nove às onze. Ao sábado, a partir das cinco, não escrevo. No domingo, recomeço.

Toda a sua vida se organiza em volta desse horário intenso? Sim, desde que deixei de ser médico.

Essa outra profissão aparece sempre em segundo plano, mas também foi determinante. Gostei de ser médico.

De que é que gostava? De várias coisas. Ser imediatamente útil, ver as pessoas melhorar. Aprendi imenso com os pacientes. Foi lá que ouvi a melhor lição de teoria da literatura. Já contei isto. Um dia, uma pessoa a quem chamavam esquizofrénico disse-me: "O mundo começou a ser feito por detrás." É uma frase extraordinária. Ou aquela outra, de uma mulher com imensas dores que, ao perguntarem-lhe como se aguentava, dizia: "É tudo a poder de lágrimas e de ais." A beleza desta frase! Como isto resume bem o sofrimento! E, depois, o encontro com as pessoas. Sempre vivi espantado com a riqueza das pessoas. Mas fui para Psiquiatria quase por acaso. O meu pai era um neuropatologista e ficou muito chocado com a minha escolha. Achava que a Psiquiatria é uma espécie de conto de fadas científico. Dizia que tanto faz o diagnóstico, o tratamento é sempre igual.

Também não via com muito bons olhos a sua opção pela literatura. Nunca falámos sobre os meus livros.

Mas sabia a opinião que ele tinha sobre si enquanto escritor. Não. Só soube a sua opinião depois de ele morrer.

Como soube? Deixou-me escrito.

Deixou-lhe cartas? Uma carta.

Podemos perguntar-lhe o que dizia? Com 13 anos anunciei-lhe que era escritor e que queria ir para Letras. Ao contrário da minha família, que pensava que eu ia acabar na miséria, a vender pensos rápidos, eu tinha a certeza que não. Estava seguro do meu génio. Era uma coisa que não oferecia qualquer discussão. Isto com 8, 9 anos. Tinha a certeza de que ia trazer coisas novas e também que só escrevia merda. Com 18 anos, o Almeida Faria, que era da minha idade, publicou o "Rumor Branco" e depois "A Paixão", e eu pensei: "Bolas, são todos melhores do que eu." Demorei muito tempo a encontrar uma voz.

A sua voz. Não sei se é a minha. Mas demorei muito tempo a encontrar uma maneira de dizer as coisas. Com os primeiros livros, sentia: "Ainda não é isto, ainda não é isto, ainda não é isto." Devia ter começado a publicar só a partir de "O Esplendor de Portugal": a partir daí, os livros tornam-se mais parecidos com o que para mim deve ser um romance.

Talvez não conseguisse chegar lá se não tivesse escrito os primeiros livros. Talvez. É verdade que a partir do "Conhecimento do Inferno" começo a tentar introduzir uma maneira de dizer as coisas diferente.

Na tal carta, o seu pai falava-lhe dos livros? Falava em geral.

O que ficou a saber que não soubesse? Nunca a mostrei a ninguém.

Surpreendeu-o? Não. Correspondia ao que eu achava de mim mesmo.

Portanto, ele acabou por reconhecê-lo. É muito curioso, os nossos mortos continuam a mudar dentro de nós. Continuam a dialogar e a inquirir-nos. Depois, finalmente, há uma altura em que ficamos em paz, se conseguirmos. A maioria dos filhos forma-se contra o pai. Eu formei-me de costas para ele. Mas houve uma coisa muito importante que ele me transmitiu: o pudor. Nunca o vi elogiar um filho. Lembro-me que uma vez tive um Muito Bom, e os pais dos meus amigos, quando eles tinham boas notas, davam-lhes dinheiro. O meu disse: "Só te dou dinheiro quando tiveres um Bestial."

Era muito exigente. Era muito normativo, mas naquela época era impossível não ser. Não tinha o menor sentido de humor, não tinha a menor imaginação, não era criativo. E acho que o sonho secreto dele era ser escritor, ou pintor, ou uma coisa assim.

Percebeu isso mais tarde? Não, já tinha percebido antes. Quando tinha 8 anos, ele sentava-se na borda da cama a ler-nos Flaubert e outros clássicos, a ler poesia.

Se foi ele que o introduziu nesse universo, porque é que se recusava a aceitá-lo como escritor? Não me contrariou. Quando decidi que queria fazer Letras, disse-me apenas qualquer coisa como: "Acho que era melhor tirares um curso técnico, porque disciplina-te o pensamento."

E inscreveu-o em Medicina. Sim.

Então estava a combater a sua vocação de escritor. Não. Fui injusto ao dizer isso. Não me contrariou. Quando era miúdo, eu escrevia às escondidas, com um livro de estudo à frente, para trocar quando alguém me via. Ainda hoje escrevo com um livro aberto à minha frente. Há uma parte de mim que acha que esta não é uma atividade séria.

Será por isso que nunca falaram sobre os seus livros? Nunca houve conversas pessoais entre nós. É uma coisa que me agrada. Com os meus irmãos também não tenho conversas dessas. Não se fala sobre a relação com Deus, que é uma coisa muito íntima, nem de relações afetivas. E de política muito pouco. Posso imaginar o que é que os meus irmãos pensam, mas não sei em quem é que votam, nem lhes pergunto.

Falam de quê? De que falamos? De Medicina, de... Na minha família não se fala muito.

Os seus pais não diziam que era especial? Especial não, diferente. E era apavorante.

Diferente como? Eu não sabia. Não sabia o que estava na cabeça deles. A minha mãe conta que eu com 2 anos me deitava no chão e ficava a olhar para o teto e que ela ficava muito assustada com isso.

Acha que foi um exemplo para os seus irmãos? Nem por isso. Eu era um cobarde. Tinha medo de tudo. Em adolescente, só dei exemplos de cobardia física. Durante as revoltas estudantis, não ia por medo das cargas da polícia. Depois, houve África. E aí fiz coisas parvas. Sentava-me no guarda-lamas do rebenta-minas. Queria ganhar o meu respeito. Percebi que não se pode ter medo de ter medo. Um dos meus orgulhos é o amor que os meus soldados me têm.

Mas recentemente envolveu-se numa polémica com os militares... Esse assunto está enterrado. Nunca me preocupei com isso. É uma palermice. O que a mim me mete medo é escrever. Cada livro é o primeiro livro. Uma pessoa está ali diante daquilo, e agora?

Sente sempre essa angústia ao começar um novo livro? Estou tão ocupado a resolver os problemas técnicos que o texto me coloca que isso não acontece. Ao princípio fazia planos, esquemas, agora já não faço. O livro vai sempre para outros lados. Este que vai sair agora, por exemplo, não o imaginava assim.

O livro foge-lhe? Não sei se ele foge. É como os filhos. Os filhos não são nossos, mas também não são de mais ninguém, não é? E depois o epíteto de romance... Aquilo não são romances. Eu quero é chegar ao mais profundo da verdade das coisas. Como nas peças do Tchekov, onde nada se passa e as personagens dizem frases como "tenho frio", "amanhã vai chover", "a cerejeira não sei quê"... E como ele consegue dar todas as gamas da alegria e do sofrimento. É espantoso. E, se formos ver os manuscritos, não há uma linha que não esteja rasurada. O problema é diminuir a distância entre a intensidade com que sinto as coisas e o que fica no papel.

Há momentos em que sente que escreveu exatamente aquilo que queria escrever? São aqueles em que sentimos "é isto". Os bons momentos parece que nos são oferecidos, que não nos pertencem. Nunca releio os meus livros. É um paradoxo, porque escrevemos os livros que gostávamos de ler e depois não os lemos. E, se leio, começo logo com vontade de corrigir aquela porcaria toda.

Leu os trabalhos académicos, e já são muitos, que se têm feito sobre a sua obra? Começo e depois não leio mais. Tenho medo que aquilo mate qualquer coisa. Mesmo quando fiz análise, nunca falei do que escrevia.

Foi importante fazer psicanálise? Ensinou-lhe alguma coisa sobre si? Não sei. Foi há muitos anos. Não sei se foi aquilo, se foi o tempo. Há um episódio da vida de Alexandre Magno em que ele tinha de tomar uma decisão acerca de uma batalha e, contra seu hábito, estava muito indeciso. Então falaram-lhe de uma mulher que adivinhava o futuro, e ele mandou chamá-la. Ela disse: "Isto é muito fácil. Acendes uma grande fogueira, e as palavras aparecem no fumo. Só não podes pensar no olho esquerdo de um crocodilo." Ele mandou embora a mulher e não acendeu nenhum fogo. É evidente que a proibição iria gerar a transgressão. Escrever é isto: não pensar no olho esquerdo do crocodilo.

Mas com o novo romance está satisfeito. Consegui dizer aquilo que queria dizer. Mas foi tão cortado que acabou por ficar pequeno. Quase um quinto da versão original.

Duzentas páginas é um bom tamanho. É pequenino. Como leitor, gosto de livros grandes. Começo a gostar de um livro precisamente ao fim de duzentas páginas.

Este livro, que narra a história de alguém internado num hospital oncológico, volta a ser bastante autobiográfico. Não há nada de autobiográfico. Devo ter ido à nascente do Mondego uma vez, e aquilo que vivi não foi assim.

Mas não foi esta a forma que encontrou de trabalhar literariamente a experiência da doença e da proximidade da morte? Foi completamente diferente. Eu estava vazio e aquela voz que fala está cheia de coisas lá dentro.

Parece que a aldeia da infância, de repente, entra pelo hospital dentro... Vila!

Sim, desculpe, a vila... É inspirada em Nelas, não? Claro. Há um homem, que é o Virgílio, que encantava a minha infância por andar numa carroça com um burro. Não me deixava pegar nas rédeas.

Afinal, é autobiográfico. Essa parte é verdade, chamava-se mesmo Virgílio. A senhora que toca harpa também existia, fazia-me muita confusão.

E há um jogo com a identidade. O protagonista chama-se António, tratam-no por Sr. Antunes... Faço isso em todos os livros, já reparou? Fiquei mesmo muito contente com este. Também tinha ficado com o anterior "Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar?", mas depois percebi que tinha usado o pedófilo e que me tinha servido da muleta técnica para uma série de coisas, está a ver? E só me apercebi quando estava a corrigir. Neste livro, quis fazer sem corda nem picareta. Acho, e cada vez mais, que só devemos começar a escrever quando temos a certeza de não sermos capazes de o fazer. Como no livro dos "crocodilos": o que é que um homem sabe das mulheres? Procurar desafios impossíveis.

Há 12 anos que se fala do suposto trauma que terá sido para si o Prémio Nobel atribuído a José Saramago... Trauma, eu?! A coisa mais curiosa que me aconteceu com o Nobel foi há uns 15 anos. Estava na Holanda, com o editor, num hotel, e havia a certeza absoluta de que eu ia ganhar o Prémio Nobel. Descemos, estavam as televisões todas. Anunciaram quem tinha ganho, já não me lembro quem foi, e desapareceu tudo num instante. Uma coisa espantosa.

Secretamente, não espera que amanhã alguém lhe telefone de Estocolmo? esta entrevista foi feita na véspera do anúncio do Nobel, atribuído a Mario Vargas Llosa É impossível este ano. Nem pensar. E, depois, sabe quem é que ganhou há três anos?

Doris Lessing. Foi mesmo?

Foi. Nos últimos anos têm premiado escritores de que eu não gosto. E muitos daqueles de que mais gosto não ganharam. Aliás, seria melhor para mim ficar do lado dos que não ganharam, como o Tolstói ou o Borges. Não sou admirador do Borges, mas ele é bom. Tem tudo para ser mau e é bom. Já o García Márquez, de quem sou amigo, se formos ler agora os "Cem Anos de Solidão", aquilo envelheceu tanto! "O Amor nos Tempos de Cólera" não. É um livro magnífico. Mas acho que o Vargas Llosa tem muito mais talento.

E esse merecia sem dúvida ganhar o Prémio Nobel. É um grande escritor até ao "Pantaleão e as Visitadoras", mas depois... Estamos muito longe do século XIX, em que havia 30 génios. Agora, se houver quatro bons escritores no mundo já é bom.

Quem são eles? Cormac McCarthy, por exemplo. Do Vargas Llosa eu gosto, embora não dos últimos livros. É mais o Llosa de "A Casa Verde", "A Cidade e os Cães", "Conversa na Catedral", que me parece uma obra-prima. Depois faz aqueles livros eróticos, de que eu não gosto, tenta recuperar a mão com "A Festa do Chibo", mas já não consegue. O problema dele é que aceita todos os convites, mas é um homem extraordinário: muito bonito, muito culto, muito agradável. Já aí tem dois. Também gostava muito do William Gaddis.

Esse já não vai a tempo. Não. Mas também duvido que lho dessem.

Preocupa-o a forma como vai ser lembrado daqui a 20 ou 50 anos? Daqui a 20, ainda posso cá estar. Daqui a 50, não. Há poucas obras que sobrevivem aos seus autores. Olhe os nossos. Quem é que lê hoje o Zé Cardoso Pires, de quem eu gosto tanto? Quem é que lê o Carlos de Oliveira? Ou o Namora, o Vergílio Ferreira, a Agustina, o Saramago, essa geração toda, quem é que os lê hoje?

Essa questão preocupa-o muito? Preocupa-me pelo Zé. E quantos escritores franceses ficam do século XX? Dois: Céline e Proust.

Tem a esperança de ser um dos que ficam? Para ser honesto, acho que vou ficar.

Vai ou gostaria de vir a ficar? Vou ficar. Estive a ler o texto de um crítico do "El País" que diz que daqui a cinco mil anos vou ser lido com paixão. Acho que ele tem razão. Ao mesmo tempo, que diferença é que isso faz? Que diferença faz ao Camões que nós gostemos dele? E ao Horácio? "Estou a construir um monumento mais duradouro do que o bronze", dizia. E estava certo.

Como pode ter essa certeza de que será lido para sempre? Tenho, e a Ana também.

Eu não... Então é pateta. Vou ficar, mas não me serve de nada. É como decidir que queremos ser cremados depois de morrer. Quando decidimos, estamos a ser eternos, mas continuamos a pensar enquanto vivos.

Os escritores constroem em vida a biografia que querem fixar para a posteridade. Sim. Vão começando a construir o mito.

Já há alguns anos que o António vem fazendo isso, não é? Eu? Acha que sim? Não tenho essa noção. Está a falar de fazer com que a minha obra perdure?

Não só a obra. A personagem também. E o que digo tem algum interesse?

Posso ser sincera? Não se ofende? Não me ofendo com a verdade.

Repete-se muito. Em todas as entrevistas há coisas que diz exatamente da mesma maneira. E é aí que se nota a construção da sua personagem. Claro que me repito. Precisamente por ser uma cassete que já conheço bem.

Torna-se mais fácil dar entrevistas? Não. Mas assim continuo a ser um desconhecido.

Então como nos pode dizer que procura a entrevista perfeita se nunca se entrega? É impossível falar de livros. Pasmo com os académicos... Acha que repito sempre o mesmo?

Repete fórmulas. Não fiquei nada aborrecido... Quanto às fórmulas, naturalmente que as tenho. Por baixo das máscaras, está a pessoa. Lembra-se do que o Nerval escrevia nos seus retratos? "Sou o outro." "Je suis l'autre." Assim, as pessoas deixam-me em paz. Mesmo com amigos que também escreviam... com o Zé nunca falei de livros, com o Eugénio de Andrade, com o Amoz Oz. Nunca falámos de livros o escritor interrompe a conversa e diz ao fotógrafo: "Isso aí na parede são frases que escrevi. Gosto muito da do Oscar Wilde: "Homero ou outro grego com o mesmo nome".

Também tem ali uma frase sua: "Se estivesse no meu lugar, o que faria?" Está no "Memória de Elefante", o seu primeiro livro. Quando a escreveu ainda não era o Lobo Antunes. Descobri-a e já nem me lembrava de que a tinha escrito.

E o que faria se estivesse no seu lugar? Referia-me a decisões que não tomamos por cobardia. Aqui há tempos a minha filha Joana telefonou-me a dizer: "Pai, acabei o namoro à homem!" Os homens nunca dizem: "Já não gosto." Dizem: "O problema não está em ti, está em mim. Preciso de pensar, preciso de espaço..." As mulheres são muito mais diretas: "Deixei de gostar de ti." E pronto. Os homens nunca o dizem porque querem que a mulher fique de reserva.

Aguenta quando uma mulher lhe diz: "Deixei de gostar de ti"? Que remédio...

Já ouviu essa frase? Não.

E com tanto romance que teve... Sou um querido! E quem disse que eu tive muitos romances? Isso faz parte da lenda!

Lá está, a lenda. Alimentada por si... Não. Nunca falo de mulheres. Se leu as entrevistas, reparou nisso.

Numa longa conversa com a jornalista espanhola Maria Luísa Blanco, falou muito sobre a mãe das suas filhas, Maria José. Se não fosse ela, nunca teria escrito. Tinha 18 anos e achava que eu fazia coisas bestiais. Eu achava que era uma merda. Vivíamos num quarto alugado, não havia dinheiro, e ela cozinhava no peitoril. Tínhamos uma mesa pequenina e, depois do jantar, ela levantava a mesa para eu escrever.

Ela acreditava. Acreditava. E era uma miúda.

E separaram-se antes de publicar "Memória de Elefante". Nunca mais me esqueço de ela dizer: "Não admito que outra mulher vá viver contigo e ter aquilo por que lutei tanto."

Isso pesa-lhe? Não.

Percebo que o seu pudor não lhe permita falar disto. São coisas que não se partilham... Muitas vezes visitei o cemitério, deixei lá cartas e o único soneto que escrevi. A senhora que toma conta das campas dizia-me: "Está aqui ao lado da menina o lugarzinho para si."

As suas filhas publicaram as cartas que trocaram durante a guerra. Não li. Foram traduzidas em tantos sítios, um horror. A última coisa que a Maria José me disse antes de morrer foi: "Que horas são?" É muito frequente nas pessoas que estão a morrer: perguntar as horas. Respondi: "Um quarto para as seis." E ela disse: "Que hora tão improvável!" É tudo muito íntimo. Não gosto de falar nestas coisas. Se eu tirasse as máscaras, começavam a aparecer estas histórias. Não tem interesse nenhum. Só me interessa porque foi a minha vida. Tudo me comove... Uma pessoa anda com a ternura assim faz um gesto de segurar no colo e não sabe onde a pôr.

Essa é a matéria dos livros? Por baixo dos livros estão estas coisas. Desde que nasci até agora: a meningite que me pôs em coma não sei quanto tempo, a tuberculose aos 3 anos, coisas boas, coisas más... a morte de pessoas de que gostava tanto, a do meu avô oficial de cavalaria - ainda hoje, às escondidas, dou beijinhos na fotografia dele - e que detestava que eu escrevesse, achava que era coisa de maricas... pausa Quando o meu pai morreu, os meus irmãos vieram beijar-me a mão. É estranho, não é?

Por ser o mais velho? Estava a receber o legado? E agora sou eu que me sento à cabeceira. Nos jantares das quintas-feiras, primeiro servem a minha mãe, a seguir a mim. E só depois as minhas cunhadas.

O que sente por ocupar esse lugar? O mundo fica completamente diferente visto daquela cadeira.

Uma questão complicada para muitos escritores é o envelhecer. Não só a aproximação da morte mas também o facto de o corpo deixar de funcionar... Já não conseguir fazer o que fazia. A única preocupação é isto ter secado. Quando acabo o livro, não tenho outro na cabeça. Mas, quando me vejo no espelho da barba, estou com 20 anos. A minha mãe, que tem um cancro na pele, sonha com eternidades de um ano.

Numas das crónicas escreveu: "Os sexagenários vêm morrer na areia numa desilusão de cachalotes sem esperança." Quando penso na minha idade, fico espantado. Passou tão depressa. Há uns tempos fui ao hospital, estavam lá umas enfermeiras reformadas, uma olhou para mim e disse: "Ah! Era lindo! Onde estão os seus olhos? Era lindo!" Foi horrível! risos Passamos de homem bonito para senhor interessante.

Disse várias vezes que só escreveria mais um ou dois livros para arredondar a obra e depois terminava. Se eu pedir só um, talvez a morte se esqueça de mim durante um bocado. Não me imagino sem isto.

Nesse caso, porque é que anunciou publicamente que ia deixar de escrever? Às vezes passa-me pela cabeça, mas depois ponho-me a pensar: "E vou fazer o quê?"

Portanto, vai escrever até ao fim. Não sei fazer mais nada o escritor interrompe novamente: "O António Pedro está a gostar das frases?", pergunta.

Por falar nisso, não chegou a responder à pergunta que há pouco lhe fizemos. Aquela frase é ótima. É de um autor inglês, o Thesiger, que esteve na guerra de 14-18. E, mais tarde, quando lhe perguntaram sobre a experiência de combatente, respondeu: "Que barulho querido. E que gentinha."

É um colecionador de frases. Vale-se da célebre memória de elefante. Para certas coisas. Toda a invenção é memória. O meu pai provava que as pessoas que tiveram um AVC e ficavam privadas da memória também ficavam privadas da imaginação. Quem nos arranja os materiais é a memória. As tais coisas de que a gente não fala e aparecem nos livros, de maneiras desviadas.

"O que faria se estivesse no meu lugar?" Esta frase atravessa a sua vida. E não nos respondeu. Pois... Pus isso aí para me lembrar às vezes... pausa longa Para me lembrar às vezes.



Publicado na Revista Única do Expresso de 16 de Outubro de 2010

Segunda-feira, 18 de Outubro de 2010

Domingo, 17 de Outubro de 2010

apre! não há pachorra...

Porque será que ainda há gente tão imbecil, tão presunçosa, tão irritante? Que tem um umbigo do tamanho do mundo e acredita piamente que tudo gira à sua volta? Que se auto-promove, faz uma lista exaustiva das suas qualidades e das vantagens de se poder partilhar a nossa humilde vida com eles(elas)? Porque será que algumas pessoas acham que são elas que escolhem alguém e que o(a) outro(a) se limita a ser escolhido(a) e ainda por cima ficar lisonjeadíssimo(a) por ter sido o(a) eleito(a)? Porque será que ainda há (e pelo que tenho visto, cada vez mais) quem acredite que o amor é só um conjunto de hipotéticas compatibilidades, de ajustes, de gostos comuns? Então querem ver que às tantas faz-se um teste de compatibilidade como se de uma orientação vocacional se tratasse, e zás! Eis que surge a relação perfeita. Eu quero lá saber dessas teorias todas, que a, b ou c são óptimas pessoas, e que até têm objectivos e projectos comuns!... Então e o click? Onde é que fica a paixão, a atracção, a química, o sorriso que nos derrete, a voz que adoramos ouvir, o cheiro que nos envolve, a mão que nos faz perder, o abraço onde nos sentimos em casa?
A vida é mais bonita se for partilhada mas não tem que o ser. A felicidade não está, de facto, nos outros. E quem espera isso, dá com os burros na água. Antes só, do que mal acompanhado(a) - já dizia a minha avó. Eu assino por baixo e acrescento: não estou em saldo.

Sábado, 16 de Outubro de 2010

a amizade

"A amizade é o amor sem asas."


[tal como me escreveu, um dia, uma pessoa que leio e que admiro.]

Quinta-feira, 14 de Outubro de 2010

acendi uma estrela para ti

Hoje acendi uma estrela. Não a encontrei no céu nem no mar. É uma estrela de luz que só tu consegues ver. Acendi-a para te iluminar o caminho e te aquecer o coração. Para te ajudar a não desistir. Para te fazer acreditar que vale a pena seres assim. Mesmo que te digam muitas vezes que o céu é um imenso buraco negro, não acredites. Fica em silêncio e lembra-te que tens uma estrela muito pequenina que é só tua e que mais ninguém consegue ver. De cada vez que acreditares, vai crescer e ser cada vez maior. Hoje acendi uma estrela que brilha só para ti.




["continuas a alegrar o meu dia sempre que apareces"]

Sábado, 9 de Outubro de 2010

revolta

Não há nada que me revolte mais do que a cobardia e a injustiça. Que nojo!

Sexta-feira, 8 de Outubro de 2010

from Baghdad

Continuas a escrever-me cartas enormes que eu adoro, que espero ansiosamente e que leio de um trago para depois as saborear lentamente e tentar esquecer que ainda falta tanto para voltares. I need your prayers to come home safely. Às vezes obrigo-me a pensar que estás em viagem, de férias, e que vai correr tudo bem. Quando vejo as notícias, rezo com todas as minhas forças para que não estejas ali, no meio deles, e que voltes são e salvo. I miss you so much, my darling. Não sei como consegues ser tão forte e optimista diante de tanta destruição. As ligações lentas, quase impossíveis. Os cortes constantes, as escutas, a censura. Wo cares? I can't stop thinking of you. A vida não pára de nos surpreender. Preciso da tua força, da tua fé, da tua certeza. É na adversidade que se vê o carácter de um homem. You has really change everything in me. Chegam fotografias que me sossegam e onde tenho dificuldade em reconhecer-te (não fosse pelo tamanho) com tanto pó e tralha em cima. Os generais também se enchem de pó? You make me feel the happiest man in the world. E que mundo é este que nos põe um oceano no meio, línguas diferentes e te faz tão longe nesse deserto hostil? Baby, I'm here for you. Eu sei.



[Para os homens da minha vida.]

Domingo, 3 de Outubro de 2010

há um menino que mora longe mas que vive no meu coração



Há um menino que mora longe mas que vive no meu coração. Gosto muito dele. Talvez seja a maturidade que contrasta com a idade e a pureza da alma. Talvez seja a coragem, a honestidade, a força de carácter, a dignidade com que se mantém de pé no meio da tempestade. Ou talvez me reveja nele quando tinha a sua idade. Há um menino que mora longe mas que vive no meu coração. Já foi um menino feliz mas agora está triste e sozinho. Corre desalmadamente pelos campos, esconde-se por entre as árvores, esfola os joelhos nas pedras que trepa, refugia-se em grutas escuras, mas vai deixando marcas na floresta, pistas que nem a tempestade apaga, sinais de fumo que só eu reconheço e que sigo até o encontrar, ou faz simplesmente brilhar uma estrela que me guia na sua direcção. Há um menino que mora longe mas que vive no meu coração. Gosto muito dele. Ele sabe, mas não me posso esquecer de lho dizer. Para que não se sinta tão triste nem tão sozinho.


[It´s not easy to be happy.]

Sábado, 2 de Outubro de 2010

U2

Ferozmente criticada quando, num jantar em casa de amigos, o meu filho resolveu contar que recusei um convite para ir ver os U2. Gargalhada geral e valentemente gozada quando acrescentou que o generoso convite tinha sido feito pelo dono do talho. Só a mim...

Quarta-feira, 29 de Setembro de 2010

ainda que eu conquiste...

Ainda que eu conquiste a terra inteira...

para mim só há uma cidade.

Nessa cidade, para mim só há uma casa

e nessa casa só há um quarto.

E nesse quarto, uma cama

e a mulher que dorme nessa cama.

É alegria resplandecente.

E a jóia de todo o meu reino.


É isto o Amor.



Obrigada.

Domingo, 26 de Setembro de 2010

encantado

Sentou-se em frente a ele, com olhar vago, coração fechado. Tímida num primeiro contacto, tornava-se distante, altiva, antipática, pouco expansiva. O dia estava lindo, quente, cheio de sol, perfeito. O rio como testemunha. Talvez por ser mais velho, mais maduro, mais paciente. Ou talvez por nada disso. Esqueceu-se do tempo e do coração fechado. E rasgou um sorriso quando ele lhe disse: encantado.

Quarta-feira, 22 de Setembro de 2010

escrever

Sempre gostei de escrever. De sentir a caneta a deslizar no papel, de ter prazer na caligrafia. De expressar por escrito o que sinto. De me aliviar. A escrita liberta-me, solta-me, torna-me mais leve. É essa a verdadeira razão por que escrevo: é uma espécie de terapia, de encontro com o meu alter ego. Faço-o essencialmente por mim e para mim, mas às vezes também para os outros. Já escrevi (ainda escrevo) cartas, histórias, declarações, pretensos poemas, blogues. Tal como está explícito na sua descrição, este blogue surgiu da necessidade de contar histórias, umas contadas outras vividas, sonhadas ou inventadas. Não é para ser entendido ou interpretado. É para ser sentido. Isto não é um diário fiel da minha vida ou das minhas experiências. É uma gaveta da alma, com desabafos, emoções, sentimentos controversos, gritos silênciosos, perguntas sem resposta. Às vezes, quem me lê e escreve, ajuda a abrir mais gavetas. Mas há sempre quem queira perceber-me, interpretar-me, adivinhar-me, e me escreva a perguntar. É legítimo. Mas eu escrevo para além do que sou e que vivo, e o que sou é apenas uma parte do que escrevo.

Segunda-feira, 20 de Setembro de 2010

às vezes

Às vezes sonho contigo e fico sem saber se és real ou imaginado. Espero por ti, que chegues, que te chegues, que precises de mim. Às vezes sinto-te frágil e gosto porque te protejo e consolo e te envolvo num abraço que leio no teu silêncio. Procuro-te mas deixo que te (me) encontres, dou-te (-me) tempo, dou-te (-me) espaço. Deixo-te voar e pairar na tua dor, espero que pouses e ouses voltar. Às vezes vejo-te e conheço-te desde sempre mas não sei se existes ou se fui eu que te inventei. Chamo-te, mesmo quando não digo uma palavra, e ouves-me e entendes-me sempre. Às vezes quero perceber-te, conhecer-te, beber-te só de um trago. Mas deixo que o bom senso prevaleça e estabeleça fronteiras. Às vezes fazes-me falta no teu corpo de homem e alma de menino, os teus mil e cinquenta sorrisos, estrelas cintilantes de esperança nos olhos. Às vezes acredito em ti, encosto a cabeça no teu ombro e deixo que te percas nos meus cabelos. Às vezes és feliz e nem suspeitas porquê. Às vezes, só às vezes.

escolher a família

Se podemos escolher os amigos, porque não a família? Toda não, vá, mas um ou outro elemento, dava jeito. Até já tenho uma listinha em mente para as substituições.

Domingo, 19 de Setembro de 2010

Este fim-de-semana decidi finalmente deixar de ser bicho-do-mato, tirar a barriga de misérias e fazer uma coisa que adoro e que já nem me lembrava da última vez: dancei até às cinco da manhã. Cheguei com os pés num oito, tambores nos ouvidos, a tresandar a tabaco e sem perceber o que miúdos com menos dez anos do que eu, vêem em mim. Já mudei as fraldas ao meu filho e chegou.

Sábado, 18 de Setembro de 2010

um dia

volto a rapar o cabelo.

Sexta-feira, 10 de Setembro de 2010

cara madrinha:

Adorei a carta. Não posso escrever. Ando pelas trincheiras. Tenho saudades. Sinto a sua falta. Escreva quando puder. Respondo assim que tenha tempo. Um abraço.



seu afilhado de guerra

Quinta-feira, 9 de Setembro de 2010


"O tempo corre.

Só quando dói é devagar."



Mafalda Veiga in O Lume

Quarta-feira, 8 de Setembro de 2010


Há dias em que as minhas palavras são feitas de silêncio.

Terça-feira, 7 de Setembro de 2010

lição nº 4


A burrice pode confundir-se com a coragem.

lição nº 3




Será?

Segunda-feira, 6 de Setembro de 2010

meu querido afilhado:

Gostei muito de receber notícias tuas e de saber que te encontras bem. Compreendo tudo o que me contas e podes ficar completamente descansado relativamente aos assuntos confidenciais. Sei como deve ser duro estares num lugar tão deserto e distante daqueles que mais amas, mas estou certa que, apesar da tua juventude, a tua força de carácter irá prevalecer e contribuir para ultrapassar com dignidade este período tão sofrido da tua vida. Gostaria de poder dizer-te que é apenas um momento breve, mas ambos sabemos que não corresponde à verdade. Tens que ter paciência e tentar viver um dia de cada vez, percebendo que se pior é impossível, as coisas só podem melhorar. Quando puder volto a mandar-te cigarros; penso que é essa a marca de que mais gostas. Escreve sempre que queiras e possas. Eu estarei aqui, à espera de notícias tuas, às quais responderei com a maior brevidade possível.
Recebe um abraço desta que te acompanha sempre em pensamento,


tua madrinha de guerra

lição nº 2

A lição nº 1 precisa de ser estudada.

Domingo, 5 de Setembro de 2010

há um lugar dentro de mim

Há um lugar dentro de mim aonde me encontro contigo. Não tem mar nem céu nem flores bonitas. Não tem paisagens de cortar a respiração nem areais a perder de vista. Mas é lá que me encontro contigo. É lá que encontro os teus poemas, a tua música, as tuas palavras aonde me perco. É lá que me envolves nos teus (a)braços e me enches de beijos. É lá que me rasgas sorrisos e me tatuas os teus sonhos. É lá que me enterneces com a tua coragem, a tua inteligência, a tua perspicácia. Há um lugar dentro de mim aonde te guardo e me encontro contigo.

Sexta-feira, 3 de Setembro de 2010

de manhã

Saí apressada para uma reunião. Mal acordada, de mau humor e ainda por cima atrasada, não respeitei uma regra da prioridade. Sorte a minha que o outro condutor me cedeu a passagem; levantei o braço a agradecer. Parada no semáforo, não reparei no vidro do carro ao lado baixar:
- Disse-me adeus?
- Como?!
- Disse-me adeus, lá atrás, no cruzamento.
- Ah... não... desculpe... estava apenas a agradecer-lhe por ter parado...
- Oh, que pena... e eu que pensava que me estava a dizer adeus...
Fugi com o sinal verde, envergonhada, a pensar como um estranho conseguiu a rara façanha de me fazer rir logo de manhã.

Casa Pia

"Como disse António Gedeão, as lágrimas são minhas mas o choro não é meu. É destes miúdos." *



*Pedro Namora, hoje, no Jornal da Tarde da RTP1, respondendo à pergunta "está emocionado?", antes de conhecida a sentença e após se saberem culpados os arguidos.

ácido desoxirribonucleico

No meio de festas, beijos e abraços possíveis e antes de começar a ser enxotada:
- És tão bonito, tão perfeito...
- ...
- E tão bem formado, com os valores todos direitinhos... Nem sei como contribuí para isso...
- Que disparate! És a principal responsável; sabes muito bem disso.
- Pois, mas às vezes custa-me a acreditar. Passou tudo tão depressa...
- ...
- Quando eras pequenino, passava horas a fazer-te festas e a cobrir-te de beijos. Consolava-me... e não me enxotavas. Lembras-te?
- Claro que me lembro. Até fiquei traumatizado.
- ?!
Muito sério, a gozar-me de fininho:
- Por isso é que agora te enxoto!




Não sei de quem herdou este humor cáustico.